Neon Genesis Evangelion – Shinji e o processo da “solutio” alquímica.

A importância de Neon Genesis Evangelion para a história dos animes é indiscutível. Desde o seu lançamento em meados dos anos 90, a obra ainda é lembrada e discutida até hoje, em virtude da infinidade de temas abordados e mistérios ainda sem resposta. O anime conseguiu unir robôs gigantes, um protagonista fora dos padrões do herói clássico e delicados temas psicológicos.

Muito já foi escrito sobre Neon Genesis Evangelion, não por menos, já que o anime fornece grande material para especulação e interpretação. A própria simbologia do anime é um prato cheio para os mais curiosos, visto que mistura uma enorme gama de símbolos de diversas religiosidades e filosofias, como a cabala, o gnosticismo e a alquimia. Além disso, a grande variedade de personagens, cada qual com os seus problemas pessoais e dilemas existenciais, permite discussões amplas e frutíferas.

ATENÇÃO – este texto apresentará muitas revelações sobre o enredo de Neon Genesis Evangelion.

A inspiração para este meu texto surgiu em virtude de um acontecimento do episódio 20, onde, depois de uma luta ferrenha contra o anjo Zeruel, Shinji é dissolvido no líquido LCL de sua unidade EVA-01. Este é um fato muito importante, que lhe permitiu conectar-se com a alma de sua mãe, que já se encontrava fundida no EVA-01.

Estando extremamente próximo à morte durante o combate contra o anjo Zuriel, Shinji e EVA-01 entram em sincronização de 400%, fazendo com que EVA-01 desperte, ativando o modo “Berserk”, o que lhe dá energia para arrancar o núcleo central de Zuriel, comendo-o em seguida. Devido à sincronização extrema, Shinji acaba se dissolvendo no LCL, em “solutio” com a alma de sua mãe.

De certa forma, a experiência de Shinji foi uma amostra do que seria a Instrumentalização Humana, na qual todos os seres seriam dissolvidos e toda individualidade desfeita. Por sorte, depois de muitos esforços da equipe da NERV, e do próprio Shinji, este conseguiu “renascer” e reaver um corpo material. Diversas interpretações filosóficas, psicológicas e místicas podem ser feitas a partir deste fato tão rico de simbolismo. No presente caso, realizarei uma análise destes símbolos a partir da psicologia analítica e da interpretação dos processos da alquimia.

Quando falo em psicologia analítica, estou me referindo  ao ramo da psicologia iniciado por Carl Gustav Jung, que enfatiza a importância da jornada individual em busca do si-mesmo, trabalhando conceitos como individuação, arquétipos, inconsciente coletivo e inconsciente pessoal, complexos, ego, persona, etc. Um elemento preponderante na psicologia analítica se dá no estudo dos símbolos religiosos e mitológicos, como forma de desvendar elementos da psique humana.

E onde entra a alquimia neste processo? Além de possuir suma importância como estudo e desenvolvimento das ciências, numa época onde não se conhecia em profundidade as propriedades dos elementos e processos químicos, a alquimia se estendeu também aos campos da filosofia e do misticismo. Elementos como a Pedra Filosofal, está que é o maior objetivo de todo alquimista, tornou-se bastante presente no imaginário popular, em obras mundialmente conhecidas como a saga de livros de Harry Potter e o mangá/anime Fullmetal Alchemist, por exemplo.

Embora sempre a alquimia seja alardeada como uma busca incessante para produzir a Pedra Filosofal, criar o elixir da vida eterna ou mesmo transformar chumbo em ouro, o verdadeiro objetivo dos processos alquímicos, segundo análise acurada de Jung, é propiciar um desenvolvimento interno. Transformar um elemento inferior em ouro é um símbolo da evolução humana, através pelo qual avançamos de um estado de ignorância para um de esclarecimento.

E é sobre essa alquimia interna que tratará este texto. Edward F. Edinger, psiquiatra estudioso da psicologia analítica, deu continuidade aos estudos alquímicos de Jung e, em seu livro Anatomia da Psique, esclarece que “[…] o simbolismo alquímico é, em grande parte, um produto da psique inconsciente” (p. 21), citando o pensamento de Jung sobre o tema:

“A real natureza da matéria era desconhecida do alquimista; ele tinha meros indícios a respeito. Ao tentar explorá-la, projetou o inconsciente sobre as trevas da matéria, a fim de iluminá-la…” (Jung, Psychology and Alchemy, CW 12, pars. 345 ss. apud Edinger, Anatomia da Psique, Cultrix, p. 21).

Anatomia da Psique, de Edward F. Edinger, principal obra de referência para o presente texto.

Edinger ainda aponta: “O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia” (p. 22). Ou seja, por meio dos símbolos da alquimia podemos interpretar os próprios processos psicológicos que se passam em cada indivíduo.

A alquimia consiste em diversas operações e uma infinidade de imagens, uma sobreposta a outra e de difícil interpretação. Era de interesse dos alquimistas comunicar seus saberes por meio de códigos e símbolos complexos, pois acreditavam que tudo aquilo que era minuciosamente claro e bem explicado, carecia de verdadeiro significado.

Não se sabe precisamente quantos processos alquímicos existem, porém é possível traçar aqueles mais importantes e principais, que são sete: calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio, coniunctio. Em português seriam: calcinação, solução, coagulação, sublimação, mortificação, separação e união. Edinger aponta que “cada uma dessas operações é o centro de um elaborado sistema de símbolos, e esses símbolos compõe o principal conteúdo de todos os produtos culturais, fornecendo as categorias básicas para a compreensão da psique” (p. 34). Ou seja, na prática, é possível traçar um paralelo encaixado entre o que ocorre na psique humana com as características dos processos alquímicos acima citados.

A montanha-caverna dos adeptos. Resumo simbólico da Opus alquímica (Michelspacher, Cabala, 1654 apud Jung, Psychology and Alchemy)

Para os propósito deste texto, vou me ater ao processo da solutio, o qual faz referência ao ocorrido no episódio 20 de Neon Genesis Evangelion. Mas do que se trata a solutio, ou solução? De um ponto de vista simplificado, baseado na química básica, as soluções são misturas homogêneas formadas por duas ou mais substâncias. Os componentes de uma solução são denominados de soluto e solvente, onde “soluto” representa a substância dissolvida e “solvente” a substância que dissolve. Na alquimia o significado é semelhante, embora englobe outros processos:

“A operação de solutio é um dos principais procedimentos da alquimia. […] Em termos essenciais, a solutio transforma um sólido num líquido. O sólido parece desaparecer no solvente, como se tivesse sido engolido. Para o alquimista, a solutio significava com frequência o retorno da matéria diferenciada ao seu estado indiferenciado original – isto é, à ‘prima materia’. Considerava-se a água como o útero e a solutio como um retorno ao útero para fins de renascimento” (Edinger, Anatomia da Psique, Cultrix, p. 67).

A partir da elucidação acima, é possível perceber que Shinji, ao se dissolver no LCL de sua unidade EVA, passou por um processo de solutio, pois ele, um ser sólido, desapareceu no solvente. Contudo, por ser um ato simbólico e, como tal, não se resume a apenas “isto” ou “aquilo”. Ao desenvolvermos mais o tema, poderemos chegar em suas implicações psicológicas.

Representação alquímica da “solutio”. No vaso alquímico, submergem na água solvente o Sol e a Lua, representando os opostos.

No parágrafo anterior, Edinger aponta que a operação de solutio propicia à matéria um retorno ao seu estado primordial, ou seja, à prima materia. Mas o que é essa tal de prima materia? Este conceito se baseia no entendimento antigo de que tudo era formado primordialmente por água, típico de pensadores pré-socráticos:

“A matéria primeira ou ‘prima materia’ é uma ideia que os alquimistas herdaram dos filósofos pré-socráticos. Em Tales [de Mileto], bem como em muitos mitos da criação, a água é o material original a partir do qual o mundo é criado. Pensavam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada antes de ser reduzida à prima materia(Edinger, Ibid, p. 67).

A “prima materia” muitas vezes é representada como o caos primordial que precede à criação, como nesta ilustração de 1655 (Marolles, Tableux du temple des muses).

Todos os processos alquímicos, diante de uma interpretação psicológica, possuem representações positivas e negativas. Na situação de Shinji, o lado positivo de se dissolver no LCL e reencontrar a alma de sua mãe que reside no EVA-01, foi ter-lhe permitido compreender um pouco mais sobre os sentimentos de seus pais em relação a ele. Estes conteúdos de sua psique estavam até então inacessíveis ao garoto, como que petrificados, porém, ao misturá-los num líquido, propiciou o início de uma compreensão. Neste sentido, verificamos como o processo de solutio corresponde ao que ocorre na psicoterapia:

“Esse procedimento [solutio] corresponde àquilo que se passa na psicoterapia. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade não admitem mudanças. Eles são estabelecidos e têm certeza de seu caráter justo. Para a transformação ocorrer, esses aspectos devem primeiro ser dissolvidos ou reduzidos à prima materia” (Edinger, Ibid, p. 67-68).

Rei dentro do LCL. Este líquido, responsável pelo suporte vital dos pilotos das unidades EVA, uma clara referência ao líquido amniótico que envolve o bebê dentro do útero materno.

Para ficar um pouco mais claro, cito abaixo um trecho de uma receita alquímica, pela qual será possível traçar um paralelo claro com a situação de Shinji. As semelhanças são incríveis. Verifica-se que Shinji realiza claramente um retorno ao útero materno. Um piloto de EVA flutuando dentro de um líquido de suporte à vida é comparável a um bebê dentro do útero coberto pelo líquido amniótico. O seguinte texto ainda apresenta a imagem de que após o retorno ao útero (prima materia), o indivíduo deve ser regenerado e renascer, assim como ocorreu com o próprio Shinji no respectivo episódio.

“Dissolve então sol [ouro] e luna [prata] em nossa água solvente, que é familiar e amigável, cuja natureza mais se aproxima deles, como se fosse um útero, uma mãe, uma matriz, o princípio e o fim de sua vida. E esta é a própria razão pela qual eles são melhorados ou corrigidos nesta água, porque o semelhante se rejubila no semelhante… Assim, convém te unires aos consanguíneos ou aos de tua espécie… E como sol e luna têm sua origem nesta água, sua mãe, é necessário, portanto, que nela voltem a entrar, isto é, no útero de sua mãe, para que possam ser regenerados ou nascer de novo, e com mais saúde, nobreza e mais força” (‘Secret Book of Artephius’, in The Lives of the Alchemystical Philosophers, p. 145-146 apud Edinger, Ibid, p. 68).

Com este exemplo, temos uma clara exposição da descida de Shinji ao inconsciente, que é o útero materno, onde nasce o ego. “Trata-se da ‘prima materia’ que existe antes da diferenciação dos elementos pela consciência” (Edinger, Ibid, p. 68).

O rei e a rainha no banho, os quais representam o Sol e a Lua. Esta é uma representação clássica do “solutio” na alquimia. Esta imagem foi reproduzida diretamente do livro alquímico “Rosarium Philophorum”, de 1550.

Ficou estabelecido que esta descida ao inconsciente faria o indivíduo renascer “com mais saúde, nobreza e mais força”. Só que estamos falando de Shinji, e esta descida ao inconsciente representada pelo complexo materno pode ser extremamente arriscada, justamente por ser uma experiência agradável. Nisto reside o maior perigo

Como bem aponta Edinger, “cada operação alquímica exibe um aspecto inferior e um superior, da mesma maneira como tem um lado positivo e um lado negativo. O fogo da calcinatio pode ser experimentado como fogo do inferno ou como inspiração do Espírito Santo. O mesmo se aplica à solutio(Ibid, p. 97). Importante traçar um pouco do que se sabe sobre Shinji para perceber como ele incorreu em grande perigo ao mergulhar no inconsciente e se deparar com sua mãe.

Iluminura medieval que representa o Salmo 69. “Salvai-me, ó Deus, pois a água entrou até a minha alma.” Na respectiva gravura, Deus ergue o rei afogado, impedindo a sua dissolução completa.

O garoto foi órfão de mãe e abandonado por seu pai quando criança, crescendo sozinho, sempre optando por fugir de situações difíceis e embaraçosas. Por ter passado a maior parte de sua vida solitário, ele possui uma necessidade gigante de que os outros o aceitem, fazendo tudo que lhe é ordenado justamente por isso. A falta de amor parental fez com que Shinji desenvolvesse este complexo. Ao longo de Neon Genesis Evangelion, ele vai fortalecendo cada vez mais a confiança em si, mas é um processo extremamente tortuoso, dando a impressão, as vezes, que Shinji dá um passo para frente e dois para trás.

É claro no anime, que Shinji luta contra os anjos não por altruísmo ou por amor à humanidade, mas pelo desejo de aprovação paterna, numa tentativa frustrada de conseguir o amor de seu pai. Como Shinji não teve uma relação parental, confunde aprovação com amor. Além disso, ele projeta a figura de sua mãe em diversas personagens, principalmente em Misato, Asuka e Rei. Quanto à Rei, a situação é ainda mais profunda, pois ela é, em parte, um clone da mãe de Shinji. Contudo, considerando a enorme complexidade do tema de “projeção do feminino” (anima) sofrida por Shinji durante o anime, entendo que se trata de um assunto a ser explorado num próximo texto, a fim de não destoarmos muito da ‘solutio’, objeto do presente artigo.

Contudo, ainda quanto a Asuka, Misato e Rei, no episódio 20, enquanto Shinji se encontra dissolvido no LCL, o rapaz se depara com diversas imagens criadas por sua psique e trava conversas com elas. Faz questionamentos sobre qual o motivo das pessoas serem gentis com ele e qual seria a vantagem de retornar ao mundo material, além de outros assuntos existenciais. Depois de uma cena em que aparece uma praia, estas três imagens femininas aparecem nuas e clamam à Shinji para que este se una a elas. Este é o aspecto perigoso da solutio, que neste caso assume uma forma de pura e simples dissolução do Ego.

Sobreposição das imagens de Asuka, Misato e Rei como materialização do dilema existencial de Shinji

Shinji busca escapar de toda dor e sofrimento, sendo uma ótima solução deixar-se levar pelas sedutoras propostas de escapismo da realidade feitas pelas mulheres de sua psique. Neste aspecto, elas assumem o papel de sereias, responsáveis por levar os marinheiros que se encantam por suas sedutoras canções até às profundezas do oceano. No entanto, foi nesse mergulho no oceano de seu próprio inconsciente que Shinji finalmente se deu conta de que a alma de sua mãe reside em sua unidade EVA. Ao entender o amor de sua mãe e que, pelo menos em algum ponto, seu pai também lhe desejou, este fato permitiu Shinji ter forças para escapar da indistinção e se afirmar como um indivíduo, escapando da dissolução de seu ego, no caso, de todo o seu ser. 

Neste ponto, é interessante o entendimento de Mircea Eliade sobre o simbolismo da água como um novo nascimento ou regeneração, representada no anime como o ato de Shinji ter se dissolvido e depois ter reencontrado sua individualidade.

A imersão na água simboliza um retorno ao estado que precedeu a forma, uma total regeneração, um novo nascimento, porque imersão significa uma dissolução de formas, uma reintegração à condição informe que precede a existência; de igual maneira, emergir da água é uma repetição do ato da criação em que a forma foi expressa pela primeira vez” (Eliade, Patterns in Comparative Religion, p. 88 apud Edinger, Anatomia da Psique, Cultrix, p. 78).

O rei se afogando é uma representação comum da solutio alquímica, como no caso desta ilustração presente no livro de alquimia Atalanta Fugiens, de 1617. O rei representa o ego. A sua dissolução e posterior renascimento produz um rejuvenescimento em bases mais sólidas.

Esta foi uma experiência reveladora para Shinji, pode não ter sido assim tão agradável, mas a possibilidade de se deixar levar a um modo de existência destituído de sofrimento foi muito tentador, e este é o caráter mais negativo da solutio. Este é um perigo muito maior para um ego imaturo, como o de Shinji no início do anime. Felizmente ele conseguiu escapar deste perigo. Lembrando que ele seria de novo testado no clímax do anime, no momento que lhe coube permitir ou não a Instrumentalização Humana, com a consequente dissolução de todos os seres. Novamente, Shinji opta por existir, pois mesmo que se machuque, os relacionamentos humanos são importantes e lhe fizeram experimentar a vida como ela é.

Ainda sobre o perigo da dissolução em um ego imaturo, comenta Edward F. Edinger:

“Um ego imaturo tende a achar prazeroso render-se à permanência numa feliz regressão; todavia, num estágio posterior do desenvolvimento, a perspectiva de ‘solutio’ vai gerar grande ansiedade, porque o estado de autonomia do ego, alcançado a duras penas, estará sendo ameaçado de dissolução. Uma solutio’ feliz é a mais perigosa” (Edinger, Ibid, p. 69).

Pessoas dissolvidas em LCL durante a Instrumentalização Humana.

Interessante mencionar o perigo que correu Shinji ao mergulhar em seu inconsciente e encontrar a doce imagem da mãe acolhedora, a qual lhe levaria para um mundo destituído de obrigações e preocupações. Neste sentido, destaca-se o conceito de incesto urobórico, de Erich Neumann:

“O incesto urobórico é uma forma de penetração na mãe, de união com ela, contrastando de modo agudo com outras formas posteriores de incesto. No incesto urobórico, a ênfase no prazer e no amor de maneira alguma é ativa, mostrando-se mais como desejo de dissolução e de absorção; a pessoa se deixa tomar, passivamente, afundando no pleroma e dissolvendo-se no oceano de prazer – um ‘Liebestod’. A Grande Mãe retoma a criança dentro de si e sempre há, sobre o incesto urobórico, a insígnia da morte, que significa a dissolução final em união com a Mãe… […] O incesto que classificamos como ‘urobórico’ é a auto-entrega a regressão. É a forma de incesto do ego infantil, que ainda se acha muito próximo da mãe e ainda não alcançou a si mesmo; mas o ego enfermo do neurótico também pode assumi-la, assim como o pode um ego posterior exausto que se apega outra vez à mãe depois de ter alcançado sua realização” (Neumann, The Origins and History of Consciousness, p. 17 apud Edinger, Anatomia da Psique, Cultrix, p. 69).

Na mitologia e na ficção há diversos exemplos de solutio feliz e perigosa, como é o desejo de Siegfried no sentido de unir-se à valquíria Brunilda em o Anel dos Nibelungos de Richard Wagner:

“À minha frente / flui um rio de prodígios / Com todos os sentidos / diviso apenas / sua alegre e borbulhante água… / ainda vou mergulhar / na água refrescante, / eu, tal como sou, / e acabar minhas dores: / Ó, que suas vagas me afoguem em bençãos / e suas ondas me acalmem este ardor!” (Wagner, The Ring of Nibelung, p. 254 apud Edinger, Ibid, p. 69).

Assim, geralmente quando há um desejo de afogamento ou de mergulhar em “águas” para aplacar as dores e sofrimentos, esta é uma imagem do aspecto negativo da solutio. Este aspecto negativo se mostra presente nas mais diversas fugas da realidade. Como a própria expressão sugere, “afogar as mágoas” na bebida é um ótimo exemplo disto. Outro exemplo  disso seria de Rei Kiriyama, protagonista do anime Sangatsu no Lion, visto que o neste anime abundam cenas em que Rei está afundando nas águas profundas, todas as vezes em que se sente depressivo. Enfim, os mais diversos vícios que permitem uma fuga da realidade material podem ser classificados como uma espécie de solutio negativo.

Siegfried sendo seduzido pelas as donzelas do Reno, para as profundezas do rio (Rackham, Color Illustrations for Wagner’s “Ring”).

O ato de Shinji abandonar o seu “paraíso” sem dor e nem sofrimento e abraçar a realidade que lhe era tão cruel e dolorosa, mas que ao mesmo tempo lhe permitiu conhecer, interagir e gostar de tantas pessoas, é um importante ato de afirmação de sua individuação, de distinção perante a dissolução que lhe era imposta. Neste sentido, nada melhor do que citar Jung em suas palavras:

“A nossa própria natureza é distinção. Se não formos fieis a essa natureza, não nos distinguiremos o suficientes. Por conseguinte, temos que fazer distinções de qualidades. Qual o prejuízo, perguntareis, em não se distinguir de si mesmo? Se não nos distinguimos, ultrapassamos nossa própria natureza, afastando-nos da criatura. Caímos na indistinção [..]. Entregamo-nos à dissolução do nada. Essa é a morte da criatura. Portando, morremos na medida em que não nos distinguimos. Daí o esforço natural da criatura para alcançar a distinção, para lutar contra a perigosa igualdade primeva. Dá-se a isso o nome de PRINCIPIUM INDIVIDUATIONIS. Esse princípio é a essência da criatura. A partir dele podeis ver por que a falta de distinção e o indistinto são um grande perigo para a criatura” (Aniela Jaffé; C. G. Jung; Memories, Dreams, Reflections. Nova York, Vintage, 1963, Apêndice 5, p. 380 ss. apud Edinger, Anatomia da Psique, Cultrix, p. 221).

Shinji chega ao ápice de sua distinção ao negar a Instrumentalização Humana no final da obra em The End of Evangelion. O que acontece depois disto, é um mistério até hoje. Contudo, penso que a experiência de Shinji dissolvido no LCL em contato com sua mãe seja um exemplo encontrado na ficção moderna que representa de maneira muito precisa o processo alquímico da solutio, exemplificando seu lado positivo e negativo.

O presente texto tem por fim, portanto, não o interesse em esgotar o tema, mas apenas trazer à luz um novo ponto de vista sobre uma obra tão complexa e vasta como Neon Genesis Evangelion. Inúmeros outros pontos interessantíssimos sobre essa importante obra devem ser abordados, não somente aqui, como por toda a internet.

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