Hana-Bi – A beleza nos contrastes.


Fogos de artifício, assim pode ser traduzido Hanabi diretamente do japonês. Embora faça um jogo de palavras remetendo ao belíssimo espetáculo de cores no céu, Hana-Bi esconde um significado ainda mais poético, “flor” (hana) e “fogo” (bi). A aparente dicotomia entre a sensibilidade de um drama familiar e as súbitas explosões das armas de fogo e cenas de ação de um filme sobre a Yakusa.

Fugindo um pouco dos animes e mangás, mas não do Japão, resolvi escrever sobre um filme que me marcou de uma maneira única. Hana-Bi, um filme de 1997, criação do multitalentoso Takeshi Kitano, ou Beat Takeshi, como é também é conhecido, que escreveu, dirigiu, editou e estrelou como protagonista esse filme notável. A Versátil lançou há poucos anos o filme com o título “Hana-Bi: Fogos de Artifício” no Brasil, filme até então inédito até mesmo em VHS, depois de mais de 20 anos de seu lançamento, permitindo que eu e outros brasileiros conseguissem assistir esta experiência cinematográfica única.

Capa do DVD lançado no Brasil.

Hana-Bi foi o maior sucesso de Takeshi Kitano como diretor de cinema depois do filme Sonatine (1993), permitindo que alcançasse uma fama internacional. Embora já fosse muito famoso dentro do Japão, pois além de diretor e ator foi um grande apresentador de TV e comediante, Hana-Bi o ajudou a se estabelecer como um dos mais brilhantes diretores de cinema do Japão. O filme chegou a ganhar um Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Takeshi Kitano é muito conhecido pelos seus filmes de mafiosos onde confere uma abordagem psicológica que foge dos clichês estabelecidos do gênero, e Hana-Bi leva isso a outro patamar. No filme, seguimos a trajetória de Nichi, um policial que teve o seu melhor amigo e parceiro na polícia baleado em uma tocaia mal sucedida, acabando por ficar paraplégico. O detalhe é que o seu amigo cobriu o turno de Nichi para que este fosse visitar sua esposa doente no hospital, fazendo-o se sentir responsável pelo trágico acontecido. 

Além do drama com seu melhor amigo, a sua esposa possui uma doença terminal, restando pouco tempo de vida. O médico sugere que ele a leve para casa, que seria melhor psicologicamente para ela aproveitar o tempo que resta, talvez viajando. Ainda mais, em outra ação policial mal-sucedida que Nichi participa, outro companheiro de trabalho é baleado e morto, deixando viúva sua jovem mulher.

Nichi larga a polícia e acaba se endividando com a Yakusa para proporcionar uma qualidade vida para sua esposa doente. Mas as coisas começam a degringolar e Nichi se vê seriamente endividado. Porém não abandona o desejo de vingar o seu amigo e também viajar com a sua esposa e aliviar o seu sofrimento. Basicamente esta é a trama de Hana-Bi, um duelo psicológico incessante entre a sensibilidade dos dramas pessoais de Nichi com toda a violência típica de um filme de máfica, mesmo essa violência sendo extremamente pontual entre os momentos de silêncio que imperam no filme.

Hana-Bi possui algumas características que embora sejam elementos típicos dos filmes de Takeshi Kitano, funcionam de uma forma muito especial nesse filme. O Silêncio é uma das suas marcas registradas. Geralmente nos filmes de Kitano há poucas falas, dando maior ênfase aos cenários e interação gestual entre as personagens, e Hana-Bi leva esse conceito a um nível totalmente ímpar. Ou seja, a contemplação é sua marca registrada, fazendo lembrar de práticas budistas de meditação e atenção aos detalhes.

E falando dos detalhes, a composição das cenas segue essa intenção contemplativa. Em praticamente quase todas as cenas há um quadro muito colorido visível em um cômodo geralmente frio, comum e com nada mais que chame a atenção, dando uma sensação de contraste muito perceptível. Daí se tem um dos fatos mais curiosos sobre Hana-Bi, todas as ilustrações que aparecem no filme foram desenhados pelo próprio Takeshi Kitano. Em um primeiro momento pode parecer que o diretor e idealizador do filme apenas queria se vangloriar com suas próprias obras e arranjar um jeito de exibi-las para o maior número de pessoas possível, mas penso não ser o principal motivo, embora não negue que deva ter sido uma realização pessoal para ele.

Seja qual motivo for, foi uma das decisões artísticas mais felizes que Takeshi Kitano teve na produção de Hana-Bi. Tais ilustrações, como as quais eu trago de exemplo neste texto, se encaixam no filme como uma luva, destacando o aspecto dicotômico que é a essência do filme, o embate entre a sensibilidade e a agressividade, podendo até fazer um paralelo com o Yin Yang do taoísmo, que representa a dualidade de tudo que existe no universo. O colorido das ilustrações até parece um intruso em salas e quartos monótonos e cinzentos, mostrando que o sentimento pode estar escondido em uma atmosfera fria e, aparentemente, sem esperanças.

Outro uso magnífico destas ilustrações de Takeshi Kitano foi justamente para representar o estado de espírito das personagens. Por exemplo, nas cenas onde há mafiosos, como em um restaurante ou no próprio escritório dos criminosos, os desenhos são efetivamente mais severos e até mesmo representando as tatuagens típicas da Yakusa. Por outro lado, e penso que sejam as mais importantes ilustrações, temos os desenhos surrealistas de Kitano, geralmente uma mescla entre flores e animais, sendo estas flores substitutas para partes dos animais, como cabeças de pinguins, juba de um leão, olhos de uma baleia ou de um gato, tudo com um fundo colorido monocromático.

Estes animais surrealistas de Kitano, junto com algumas outras ilustrações interessantes, como pessoas na chuva e em outras paisagens, aparecem de maneira mais intensa, principalmente no início do filme e em alguns cortes de cena. Contudo, o uso mais impactante foi em representar a arte de Horibe, o amigo de Nichi que ficou paraplégico. Após sofre o acidente de trabalho, sua esposa e filha o abandonaram, ficando sozinho, sendo que manifestou que gostaria de fazer um hobby como a pintura, mas que os materiais eram muito caros. Nichi, então, fornece esses materiais ao amigo, que começa a pintar para preencher o vazio de sua solidão.

Importante mencionar que as pinturas de Horibe mostradas no filme, são as obras de Takeshi Kitano. O personagem, na maioria das vezes aparece desenhando com a técnica do pontilhismo, como é mostrado em Hana-Bi. Contudo, o significado dos desenhos consegue extrapolar até mesmo a película, pois estas ilustrações foram feitas pelo Kitano enquanto se recuperava de um acidente de moto grave que sofreu em 1994, que acabou por paralisar em parte os movimentos de um dos lados do rosto. Assim, o significado simbólico dos desenhos acerta em cheio o momento passado por Horibe, como manifestação dos seus sentimentos em plena solidão e também pela dor da perda, causada pelo acidente.

Ainda mais, são justamente os desenhos que protagonizam a cena mais memorável do filme inteiro. Uma cena nada usual e até aparentemente fora de contexto, além de ser longa e que nada parece acontecer. Uma cena onde Horibe, em sua cadeira de rodas, para na frente de uma loja de flores e começa a contemplá-las, para cada flor que é apreciada, desde girassóis até copos-de-leite, há um corte para uma obra diferente que utiliza a flor como um elemento de metamorfose com um animal e até mesmo uma mulher em um quimono estampado, tudo combinado com uma trilha sonora perfeita. A cena prossegue até que uma moça que trabalha na floricultura chama a atenção de Horibe e o trás de volta a realidade. 

A referida cena, em sua genialidade, explica a essência do filme através da contemplação feita por Horibe; o eterno conflito entre sentimentos e ações, entre a felicidade e a melancolia. Penso ser quase impossível assistir a cena sem sentir nada. A cena por si só é fantástica, e colocada em Hana-Bi a torna uma das melhores da história do cinema, é algo brutalmente poético, é difícil de descrever o que se sente ao assistir. Estou correndo o risco de soar pedante ao elogiar tanto, mas tudo bem, o filme merece isso.

Comentei que a música dessa cena era perfeita, porém não só del, pois a trilha sonora do filme todo é um trabalho magistral. Se sabe que uma boa trilha sonora consegue trazer novas nuances para um filme, acentuando sentimentos e impressões, ainda mais quanto é um compositor que tem a sensibilidade certa para conseguir compor uma trilha que se encaixe com o espírito do filme. O compositor de Hana-Bi é ninguém menos que Joe Hisaishi, que além de ter trabalhado com Takeshi Kitano em diversos filmes, compôs a trilha da grande maioria dos sucessos do estúdio Ghibli, como Meu Vizinho Totoro, Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado, Ponyo, entre outros. Então, estamos falando de um profissional extremamente capacitado, que junto com a direção e roteiro de Kitano, conseguiu entregar um trabalho memorável.

Outro aspecto de grande importância de Hana-Bi é o enfoque na comunicação não verbal. Mesmo que seja polêmico, é possível um filme tranquilamente prescindir de muitas falas e mesmo assim transmitir muita informação. Em um primeiro momento, dá para pensar que Nichi seja um marido frio, que não diz uma palavra à sua esposa, nem quando vai visitá-la no hospital, e por contraparte, ela também não lhe diz nada. É fácil e simples supor que não tivessem um bom relacionamento, mas isso não se mostra verdade.

A relação do casal, em cada detalhes apresentado, mostra um retrato terno da felicidade conjugal. É natural que depois de um convívio de muitos anos, parceiros de longa data possam descobrir o que o outro pensa apenas com um olha ou gesto. As palavras são limitadoras, os gestos e os sentimentos não. Incrível como se consegue prestar muito mais atenção nos detalhes da cena quando não se tem falas ou legendas para se preocupar. Assim, a interação de Nichi com sua esposa compõe as cenas mais felizes do filme, desde uma brincadeira com cartas ou uma tentativa de acender alguns fogos de artifício, tudo isso sem trocar nenhuma palavra. Contudo, a felicidade do casal é uma felicidade nostálgica, pois sabemos que aqueles eram seus últimos momentos juntos, o prenúncio da despedida.

Essa ternura e sentimento sem pressa, no seu próprio ritmo, que também é mostrada nas cenas de Horibe com sua pintura, contrasta com a imediaticidade e crueza das cenas de violência. É como se as cenas de ação apenas estivessem no filme como por uma obrigação, um dever, tinham que ser mostradas mas não sendo necessário perder muito tempo com elas. Isso também demonstra o caráter dual de Nichi, enquanto por um lado é um homem capaz de atos de violência, por outro, não tinha pressa em dar atenção à sua esposa e ao seu amigo.

Em Hana-Bi ainda há um pouco de comédia, mesmo que não seja possível conceber o filme como cômico. As cenas que buscam ser engraçadas são tão sutis quanto todas as outras, correndo o risco de passar despercebidas, mas elas estão lá em alguns pontos chave, como quando Nichi finge atirar em um jovem operário que está na beira de uma rodovia, ou quando ele joga uma bola de baseball totalmente fora de direção para alguns rapazes logo no início do filme.

Dessa forma, em Hana-Bi temos como movimento principal a dualidade da própria existência que o próprio título sugere, como também a contradição entre a sensibilidade dos dramas dos personagens com as cenas de violência sangrentas. Tudo isso montado em um esquema de cenas que foge um pouco da linearidade, pois as vezes a ordem dos acontecimentos é invertida dando uma sensação de afastamento da realidade, somado a uma trilha sonora eficientíssima e uma atuação muito competente dos atores, principalmente de Nichi, interpreta por Takeshi Kitano.

Hana-Bi ainda entrega um final surpreendentemente sincero, não feliz, mas agridoce, parece que foi a única resolução possível para o drama de Nichi, como quando alguém resolve todos os seus problemas e possui a serenidade de sentir que não deixou nada pendente. É aquela dor que é amenizada pela felicidade das boas memórias que não deixam ser ultrapassadas pelos momentos ruins.

Penso que não seja preciso nem dizer que recomendo que assistam Hana-Bi. E digo mais, penso que o filme entra no meu rol de películas essenciais da história do cinema, e um dos meus filmes preferidos, e espero de vez em quando poder reassistir Hana-Bi para renovar toda a gama de sentimentos que me proporcionou. Se não puder assistir o filme todo, pelo menos de vez em quando quero rever a cena de Horibe contemplando as flores.

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